terça-feira, 30 de abril de 2013

O FIM DO AMOR, SEGUNDO DANUZA LEÃO E PAULO MENDES CAMPOS



Houve um tempo em que ele não fumava charuto quando você estava perto, ou soprava a fumaça para o outro lado, para não incomodá-la. Agora, ele leva o charuto para o quarto e de vez em quando até deixa cair cinza nos seus belos lençóis. Mas não importa o que ele faz: interessa mesmo é saber como vai seu coração. Vamos ao teste?

Quando ele ia surfar, seu maior prazer era ficar sentada na areia, olhando aquele deus dominando as ondas como se fosse um personagem do Antigo Testamento. Era o nirvana, entre uma onda e outra. Hoje você fica no celular falando com uma amiga e, se ele se afogar, só vai saber quando chegarem os banhistas para salvá-lo.

O tempo passa e as coisas mudam, inclusive aquelas que pareciam eternas.
Lembra daquele verão em que você, suando em bicas, dormia com o termômetro marcando 42 graus e o ar-condicionado desligado -felicíssima- porque ele tinha alergia? Isso, sim, era amor.
E lembra de quando ele resolvia ouvir jazz, aquele bem barulhento, e você nunca ousou dizer que preferia, mil vezes, ouvir Maria Bethânia cantando “Fera Ferida”?

De manhã, mesmo que acordasse com insônia às 6h da manhã, não tocava nos jornais; ele não gostava -nenhum homem gosta-, que nem você, o amor de sua vida, ponha o dedo nos jornais antes dele. E valeu? Bem, depende. Atenção: quando uma mulher responde depende é bom desconfiar.
A duríssimas penas -e sempre por amor- você deixou de fumar e de beber. Não que fosse uma Amélia; mas se fosse recomeçar, seria capaz de fazer tudo de novo? E no sábado à tarde, quando ia, toda sorridente, ver o filme de violência que ele queria e jamais o que gostaria de ver, pois abria mão de tudo para fazer sua vontade? E ainda encarava sair às vezes para jantar com seus amigos -e a mulher-, tendo que ser bem simpática, falar de problemas de casa e trocar receitas, quando a vontade era de se enfiar na cama com um livro até o sono chegar e dormir com a luz acesa, assim, a troco de nada.

Hoje, quando estão jantando os dois, sozinhos, e ele pede seu último camarão, você dá com a maior boa vontade ou quer matar?

É, a gente muda, a vida muda, e é preciso pegar leve. Mas, se comprar uma caixa de chocolates e na hora em que ele estiver chegando esconder no fundo da gaveta, atenção: talvez o amor tenha chegado ao fim.

Não se nega um chocolate ao ser amado, mas, quando isso acontece, é o sinal inequívoco de que o amor acabou.

Danuza Leão


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O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Paulo Mendes Campos

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O LUTO

















Para quem eu posso colocar essa pergunta (com alguma esperança de uma resposta)?
Ser capaz de viver sem alguém que você amava significa que você a amou menos que você pensava...?














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R. Barthes











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quinta-feira, 21 de março de 2013

A MORTE DA TARTARUGA

O menininho foi ao quintal e voltou chorando: a tartaruga tinha morrido. A mãe foi ao quintal com ele, mexeu na tartaruga com um pau (tinha nojo daquele bicho) e constatou que a tartaruga tinha morrido mesmo. Diante da confirmação da mãe, o garoto pôs-se a chorar ainda com mais força. A mãe a princípio ficou penalizada, mas logo começou a ficar aborrecida com o choro do menino. “Cuidado, senão você acorda o seu pai”. Mas o menino não se conformava. Pegou a tartaruga no colo e pôs-se a acariciar-lhe o casco duro. A mãe disse que comprava outra, mas ele respondeu que não queria, queria aquela, viva! A mãe lhe prometeu um carrinho, um velocípede, lhe prometeu uma surra, mas o pobre menino parecia estar mesmo profundamente abalado com a morte do seu animalzinho de estimação.

Afinal, com tanto choro, o pai acordou lá dentro, e veio, estremunhado, ver de que se tratava. O menino mostrou-lhe a tartaruga morta. A mãe disse: - “Está aí assim há meia hora, chorando que nem maluco. Não sei mais o que faço. Já lhe prometi tudo mas ele continua berrando desse jeito”. O pai examinou a situação e propôs: - “Olha, Henriquinho. Se a tartaruga está morta não adianta mesmo você chorar. Deixa ela aí e vem cá com o pai”. O garoto depôs cuidadosamente a tartaruga junto do tanque e seguiu o pai, pela mão. O pai sentou-se na poltrona, botou o garoto no colo e disse: - “Eu sei que você sente muito a morte da tartaruguinha. Eu também gostava muito dela. Mas nós vamos fazer pra ela um grande funeral”. (Empregou de propósito a palavra difícil). O menininho parou imediatamente de chorar. “Que é funeral?” O pai lhe explicou que era um enterro. “Olha, nós vamos à rua, compramos uma caixa bem bonita, bastante balas, bombons, doces e voltamos para casa. Depois botamos a tartaruga na caixa em cima da mesa da cozinha e rodeamos de velinhas de aniversário. Aí convidamos os meninos da vizinhança, acendemos as velinhas, cantamos o “Happy-Birth-Day-To-You” pra tartaruguinha morta e você assopra as velas. Depois pegamos a caixa, abrimos um buraco no fundo do quintal, enterramos a tartaruguinha e botamos uma pedra em cima com o nome dela e o dia em que ela morreu. Isso é que é funeral! Vamos fazer isso?” O garotinho estava com outra cara. “Vamos, papai, vamos! A tartaruguinha vai ficar contente lá no céu, não vai? Olha, eu vou apanhar ela”. Saiu correndo. Enquanto o pai se vestia, ouviu um grito no quintal. “Papai, papai, vem cá, ela está viva!” O pai correu pro quintal e constatou que era verdade. A tartaruga estava andando de novo, normalmente. “Que bom, hein?” - disse. - “Ela está viva! Não vamos ter que fazer o funeral!” “Vamos sim, papai” - disse o menino ansioso, pegando uma pedra bem grande. - “Eu mato ela”.

MORAL: O IMPORTANTE NÃO É A MORTE, É O QUE ELA NOS TIRA.

(Millôr Fernandes, "Fábulas Fabulosas")

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

METADE



Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

O SILÊNCIO É UMA PRECE













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Blecaute na dor. 
Paz no coração. 
No mais a gente acerta. 
Aos poucos, o que não é pra ser definha e a gente floresce,
não como flor e sim como prece." 

Ju Fuzzeto








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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A HISTÓRIA MAIS TRISTE DO MUNDO

Não importa quais circunstâncias duas pessoas se separam. não importa os motivos. não importa o tempo, não importa história, não importa quantas vezes foram ditas as palavras eu te amo. Haverá sempre um par de horas, as últimas. haverão sempre palavras que se repetem, as mesmas. E haverá sempre sangue sendo bombeado. pra dentro, pra fora, pra todos os lados. Todo fim de um relacionamento é como o vídeo abaixo, o vídeo mais triste e mais verdadeiro sobre essa hora que eu já conheci. Todo fim de relacionamento é a mesma coisa. só muda a quantidade de sangue derramado em cada história. 



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Lady GaGa - Stand By Me

A hora da lagarta // la hora de la oruga




Então eu acordei naquele estado gostoso porém estranho e inexplicável de dormência. Daí me perguntei sobre a hora da lagarta. Se há a hora da estrela, há a hora da lagarta. Será que a lagarta sente um tipo de intuição, um insight, um alerta de que é hora de parar? Qual será aquele instante exato da sua curta vida em que ela se toca que é hora de parar de comer, buscar um cantinho fresco e seguro, longe da chuva e do sol escaldante pra se pendurar de cabeça pra baixo e dormir? Será que ela sempre sabia disso? Será que ela um dia acorda como eu, dormente - simplesmente sabendo que deve fazer aquilo, agora? O que será que acontece na mente e coração da lagarta quando o mistério do tempo é revelado pra ela? O que acontece nos últimos segundos da lagarta como lagarta, antes de virar borboleta? não, sei, mas sei que um dia ela acordou com essa ideia na cabeça. e daqui pra frente, só Deus sabe.


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Entonces me desperté en aquel estado hermoso, pero extraño y inexplicable de acalambramiento. Me pregunté sobre la hora de la oruga. Si existe la hora de la estrella, existe la hora de la oruga. ¿Será que la oruga siente un tipo de intuición, un insight, un alerta de que es la hora de parar? ¿Cuál será aquel instante exacto de su corta vida en que ella siente que es la hora de parar de comer, buscar un pequeño sitio fresco y seguro, lejos de la lluvia y del sol escaldante para permanecer cabeza abajo y dormir? ¿Será que ella siempre supo acerca de eso? ¿Será que ella algún día se despierta como yo, acalambrada - solamente sabiendo que debe hacer aquello, ahora? ¿Qué ocurre en la mente y corazón de la oruga cuando el misterio del tiempo es revelado a ella? ¿Qué ocurre en los últimos segundos de la oruga como oruga, antes de transformarse en mariposa? No sé, pero sé que un día ella se despierta con esta idea en la cabeza. y de ahí en adelante… solo Dios sabe.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O MONÓLOGO CÁRMICO DE SALOMÉ - SUSANA KAHLS





munida da autoridade da arte - e nada mais - venho através desta lhe pedir que PARE!
pare imdiatamente!
pare o que está fazendo.
se é que você sabe o que está fazendo.
construindo esta catástrofe, desde o início.
espelhando sua frustração de ontem num parceiro fotogênico de hoje.
isso não se faz.
melando nossa intenção com fluídos corporais em sua cueca de elástico personalizado.
demolindo nosso lirismo com uma ambição que mal cabe na sua estatura diminuta.
levando nossas obras para exibí-las em seu ‘matadouro’ de mármore no subúrbio.
abissal é a distância que separa um putinho carente de um de um gentil homem.
nosso virtuosismo não serve de antídoto para sua mediocridade.
somos imortais.
para tanto sensíveis a essa materialidade toda.
pare!
não fale de amor.
seu cérebro obtuso de tanto ver televisão não sabe o que é isso.
não fale de paixão.
ela só cabe a quem cria, não a quem mimetisa.
escreva e guarde seu texto raso.
mal uso de palavras é crime.
leve para um analista, junto com sua inaptidão para a clareza e pré-disposição para confundir.
contos de fadas não passam de vts institucionais de princesas maquiavélicas 
mimadas como afronta à supostas vilãs.
a fraude não conhece o romance.
o belo não existe onde mora o tédio.
seu espelho é opaco.
imprime um ar monstruoso em que ousa fitá-lo.
um mero toque em sua pele pode causar mais danos que todas as epidemias que assolam a terra.
e se algum dia alguém ousar o ‘fausto’ de lhe cuspir a cara, agradeça.
você merece!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Caçada Bebel Gilberto




Não conheço seu nome ou paradeiro
Adivinho seu rastro e cheiro
Vou armado de dentes e coragem
Vou morder sua carne selvagem
Varo a noite sem cochilar, aflito
Amanheço imitando o seu grito
Me aproximo rondando a sua toca
E ao me ver você me provoca
Você canta a sua agonia louca
Água me borbulha na boca
Minha presa rugindo sua raça
Pernas se debatendo e o seu terror
Hoje é o dia da graça, hoje é o dia da caça e do caçador
Eu me espicho no espaço feito um gato
Pra pegar você, bicho do mato
Saciar a sua avidez mestiça
Que ao me ver se encolhe e me atiça
E num mesmo impulso me expulsa e abraça
Nossas peles grudando de suor
Hoje é o dia da graça, hoje é o dia da caça e do caçador
De tocaia fico a espreitar a fera
Logo dou-lhe o bote certeiro
Já conheço seu dorso de gazela
Cavalo brabo montado em pelo
Dominante, não se desembaraça
Ofegante, é dona do seu senhor

domingo, 30 de dezembro de 2012

Milky way




Eu sou o leite.
E eu estava morrendo de saudade.
Eu sou um lugar que você quer voltar
Uma casa e um ninho que não te pertencem mais.
Sou um sabor azedo na boca
E um abraço demorado.
Sou cada uma das estrelas
Que perpassam o firmamento.
E em cada seio de cada mulher
Sou uma porção de um oceano branco e imaculado
Em cada uma delas
Em cada mama
Que Deus pôs.
Sendo assim, sou um tipo de mundo líquido
E você é um tipo de criatura,
Uma nereida ou um tritão
Querendo voltar pra casa
A Via Láctea
O seio de mamãe
Tanto faz, estamos indo de volta pra casa.
Eu sou uma tentativa
De recomeço, eu sou seu primeiro amor
Eu sou seu primeiro sabor
Eu sou um tipo de frustração
Que o seu corpo não tolera mais.
Mas sente falta, lá no fundo
Às vezes sinto saudade de passear aqui
Ficar e dormir
Eu sou o leite.
Eu amo me sentir tão pequeno
Frágil e adormecido no seu peito ou dentro do seu útero
Sonhando com uma aventura fantástica pelo espaço
Você como um bebê-Deus, mamãe
e uma vaca branca de manchas pretas nos acompanhando.
Todos juntos caminhando sobre mim, na minha forma de oceano.

Escrevendo juntos
A mais linda história já criada. 



Eu sou o café.
Eu sou aquele que te recebe em casa com um abraço
E te faço parte do meu mundo.
Sou o seu namorado e também sou sua mãe.
Mas posso ser seu melhor amigo ou seu chefe, se você quiser e tiver tempo.
Eu sou quem te acalma e estabiliza
Quando te faltam palavras e ar
De uma carta inexplicável
De um sonho ruim
De uma lembrança dilacerante.
Eu sou a oferenda ao sol de cada manhã sua
E o companheiro da madrugada.
Eu sou a única coisa que você dá de manhã
Eu sou o som dos seus dedos no teclado do PC
Na sua necessária (?) solidão
Mais que tudo
Eu fui e sou o presente.
Eu ainda estou aqui.
Não sei se acordado ou com sono
Não sei se quente ou frio
Mas com o mesmo cheiro e com a mesma cor
Porque eu não me deterioro
Ainda líquido, talvez ainda mais líquido do que antes.
Eu sou o café, tentando entender
Cada palavra
Prestando atenção em cada palavra sua
Sem pressa, assoprando com cuidado pra não queimar
Dormindo e acordando
Manchando sonhos com café
Perfumando hálitos com café
Persistindo e invadindo os cômodos da casa com aroma de café

Dizendo que ainda estou aqui.



Unaí, 31 de dezembro de 2012.





sábado, 22 de dezembro de 2012

Sunday by Moby on Grooveshark


Sunday was a bright day yesterday
Dark cloud has come into the way

They sing to the darkest night
Long before

Why can’t I face it
Am I too blind to see
Why did he go
Why did he leave me


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

PORT ANTONIO











Abrindo os olhos
Vi o azul chegando
Me acordando
Me fazendo dormir de novo

E tanto, então sonhei
Com o que não queria mais ver
Pensando em tudo aquilo então




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

OS NOVOS MINEIROS


Nota sobre alguns mineiros que o jornal OTEMPO elegeu como destaques em diversas áreas de atuação aqui em BH. Estou lá! Obrigado ao jornal pelo reconhecimento! Confesso que acho divertido e engraçado o termo novos mineiros! Para ler a nota é só clicar aqui!

TRITON LOVERS



Meu trabalho Dragonfly of Regret ilustra o calendário projeto Triton Lovers esta semana. Pra baixar é só clicar aqui! Confira também um pequeno release sobre o trabalho aqui. 

Obrigado Triton e Izumi pelo espaço e divulgação! =)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


Há muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. assim como há muitas idéias na cabeça, como uma tempestade. Hoje eu tive um dia tão estressante, tão caótico e puxado no trabalho, e ainda assim me sinto à léguas de distância da resolução dos problemas e resultados esperados. Pra piorar passei o dia com uma dor absurda nas costas, como uma agulha delicadamente implantada entre meu pescoço e atrás dos meus ombros. Desconfio que assim como os lobisomens ou nas lendas japonesas das pessoas que se transformam em outros seres durante a noite, eu devo estar virando uma espécie de serpente, pois só isso explica a má posição que devo estar dormindo pra acordar com tanta dor como anda ocorrendo. Preciso urgentemente de um ortopedista, antes que me corpo fique em forma de um ponto de interrogação. 

Por isso, não hesitei, depois de entregue o trabalho mais cansativo e prioritário do dia, em matar a vontade de comer um acarajé, ali da rua fechada na região dos bares que passo todo dia quando vou pra minha academia. meses passando ali e resistindo. sem sentar numa mesa e pedir um chopp. não por auto castigo, mas por falta de clima. o bar é o bar porque há pessoas alegres e falando alto no bar. o bar é uma criação social, é uma celebração. deve haver um contexto. Por isso que raramente vou num bar beber e comer sozinho. Mas hoje eu precisei. Eu me permiti. A grana anda curta? foda-se. Acarajés engordam? foda-se. Não é legal sentar sozinho? foda-se. E comendo meu acarajé em estado de graça e felicidade efêmera, pensei tantas coisas, nas coisas desses últimos tempos. Não há nada que faça mais atualmente do que pensar, refletir, rever, questionar. Me pego falando comigo mesmo, me pego em diálogos que nunca irão acontecer, me pego pedindo satisfações e dando também. Me pego esclarecendo os últimos meses, numa espécie de auto terapia ou um monólogo psicodrama. 

Foi bom desacelerar, foi bom comer o acarajé sem culpa, quase que secretamente. Eu me esquivei de quem me veria e sentaria pra falar comigo. Um grande amigo e ex chefe, hoje um senhor, me contava que na sua juventude, assim como eu, ele tinha muito pouco dinheiro e tinha que fazer acrobacias pra se virar. E que no dia do seu pagamento, a primeira coisa que ele fazia era correr pra uma loja de doces comprar 2 ou 3 trufas da marca X, que era a coisa mais chique, saborosa e prazerosa pra ele. aquele momento, segundo ele, era esperado pacientemente durante todo o mês, e era sempre o mesmo numero..no máximo 3 chocolates, que ele mastigava em câmera lenta, como nos comerciais da tv, pra sentir cada instante, cada pedaço, cada átomo, cada gota de saliva misturada com aquele cacau. não faria sentido comprar o salário inteiro em chocolates finos, era sempre a mesma quantidade. um prazer medido, calculado. tão pouco, tão verdadeiro e intenso. Eu me senti um pouco assim hoje, me perguntando quantas coisas estou me privando, e como funciona essa coisa da dor física e da dor espiritual, do peso da rotina, da busca pelo prazer e da busca pela cura, e como tudo isso anda junto e misturado. 

Por outro lado, eu mentiria se dissesse que todos os meus dias são assim. não, não são. não sei se daria conta, mas gosto um pouco desse turbilhão que ocupa a cabeça das coisas mais tristes. é interessante notar como o coração, no estado de nebulosa, mudando de forma, se comporta. Alguém disse que é preciso estar distraído, pra algo acontecer, pra tal coisa surgir, e se instaurar em você, não tenho certeza, mas acredito que a pessoa se referia ao amor. daí, você pode imaginar quantas formas e tipos de amor conseguir pensar, inclusive o amor próprio. a nebulosa é um monte de poeira e gás, o farelo do universo, que a gravidade vai acumulando e depois esculpe uma caixa de jóias, e de lá nascem estrelas, supernovas. até tudo morrer e começar de novo. Então, me vejo assim, distraído, estressado com o trabalho e rotina, e ao mesmo tempo pensando nas formas que o coração está assumindo como nebulosa, é um jogo de sair e entrar, revelar e esconder. estar aqui e não estar, relembrar e esquecer. isso é bem interessante, porque eu vejo um João que gosta de ser um pássaro na velocidade da luz, mas também há um João que gosta de ser uma pedra coberta de musgo. Às vezes tenho milésimos de segundo em que consigo ter a consciência do que significa poder transitar entre esses dois estados. o quanto é bom e o quanto dói. 

Escrevo e penso essas coisas sentindo dores. Tem sido assim. às vezes pesado, às vezes leve. contando os dias, contabilizando meses. fazendo planos. contando as vezes que chorei neste ano. Enumerando as novidades. no belíssimo documentário, "A artista está presente", de Marina Abramovic, ela fala sobre o processo de sentir dor. Segundo ela, sentir dor é algo como um segredo bem guardado, no momento em que se passa pela porta da dor, é como atingir um outro estado mental, onde há beleza e amor incondicional, onde não há mais fronteiras entre seu corpo e o que te rodeia e onde começa a sentir uma sensação de leveza e harmonia consigo mesmo. Esse outro estado mental é exatamente aquele que provavelmente começa a fazer com que sinta que algo mudou em você. a forma de ver o mundo muda.tudo muda inexplicavelmente. como uma coisa sagrada.

É preciso saber como se portar e se preparar pra quando a dor chegar. 












a angústia nasce no coração, mora na garganta e se expande continuamente em todas as direções.
a angústia às vezes cresce tanto que vira uma água quente que sai dos olhos e esfria dentro do peito.
às vezes ela tb não aguenta e vomita o almoço e evita o jantar.
a angústia de tarde descansa deitada no sofá.
ela é uma tia gorda que vem visitar de surpresa e só vai embora quando quer.
ocupa os espaços da casa e não se importa em deitar na nossa cama e nos deixar insones durante toda sua visita.
a angústia pode virar um monstro horrível se acompanhada de álcool ou outros alteradores de consciência.

a angústia mora na garganta
a angústia mora na garganta
ela nasce no coração e mora na garganta
a angústia não sabe o caminho de volta
a angústia sente-se em casa
a angústia acha que é amiga e tem hora que a gente acha que gosta dela e dá pra ela um travesseiro mais macio, um café quetinho e um poema triste.

Bárbara Ahouagi. / Vakaloka

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

time goes by / so slowly






É assim com as nuvens: todas dançam ao som dos ventos, todas em uma direção, todas parecem se agrupar num canto do céu como se estivessem apenas ocupando o que lhes cabe; 
esquecem-se de sua condição anterior: antes nuvem em forma-ação. 
Em seguida, tal agrupamento rotineiro configura-se em tempestade. 
O vento não tem mais direção, nada segue calmamente, instaura-se uma desorganização que, 
em breve tratará de se re-compor. 
Até quando.


Mayra Redin

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012




Tudo não é até que passa a ser.



Será que uma montanha se sente fraca por carregar seu próprio peso? ela se sente pesada?






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