quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Os dilemas


(Sakata Kaidomaru lutando com uma carpa gigante, 1837. ) pintura de Utagawa Kuniyoshi, artista de Ukiyo-e, considerado um dos precursores do Mangá moderno.
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Oi João Paulo, tudo bem?

Você não me conhece, me chamo David, moro em São Paulo e faço design, estou terminando o 2º ano de faculdade.
Acredito que você já tenha escutado isso diversas vezes, mas como eu escutei uma vez, "existem coisas que a gente precisa dizer mesmo que soem como clichês". Gosto extremamente do seu trabalho, sempre fico olhando o seu perfil no deviantart, blog e twitter. Bem no início, comecei a fazer cópias dos seus desenhos, estudando os seus traços e tentando imaginar os conceitos que te levaram a desenhar esta ou aquela figura.

Os seus trabalhos me ajudaram a perceber como é importante para um designer, saber se expressar através do desenho e fundamentalmente como ele se torna uma parte da própria pessoa e como ele pode tocar as pessoas.
Há um pouco mais de um ano, venho estudando de forma autoditada desenho. Sempre gostei de desenho e de desenhar, mas só comecei a efetivamente a estudar neste último ano. Comprei milhares de livros, revistas, juntei milhares de refêrencias de outros designers e desenhistas. Fiz progressos, me enpolguei, acreditei que possuia o dom e estava no caminho certo, mas neste último semestre do ano, me matriculei em uma escola de desenho e no decorrer do curso comecei a sentir que não estou progredindo tanto quanto pensei que iria progredir. Desenho a todo momento, mas nestas últimas semanas, não consigo desenhar nada. Possuo um sentimento de cobrança enorme, e ele está me massacrando. Comecei a rasgar desenhos antigos, a ficar mal vendo a minha pasta de desenhos.
Estou começando a duvidar de mim, da escolha que fiz como profissão, da arte de desenhar, de fazer coisas bonitas que possam tocar alguém de alguma forma.
Sabe, no mundo algumas pessoas me sensibilizam, como por exemplo o Morrissey e suas músicas, que ajudaram a entender fases da minha vida, Tori Amos e o seu piano e a posição de força, Kate Bush e a sua excentricidade genial, Michelangelo e o suas pinturas que me aproximam de algo maior.

Cada uma dessas pessoas me tocou em níveis diferentes, já escrevi para cada uma, mas pela primeira vez decidi conversar efetivamente com alguém que admiro o trabalho, não como um alguém sem fundamento que quer apenas jogar confetes nos outros, ou um deslubrado, mas como alguém que quer conversar de igual pra igual, que deseja saber se essa pessoa já passou por algo semelhante, se já sentiu dúvidas referentes ao seu trabalho, a sua profissão, a sua arte, etc.
Eu queria saber se alguma dessas dúvidas já se passou pela sua cabeça, como você conseguiu resolver isso, como fez para se estimular, a dar o passo seguinte, para acreditar em si, como as coisas funcionam na sua cabeça, enfim...
Talvez você ache que este email não tenha sentido e talvez me ache um fraco ou louco e possivelmente não queira responder este email. Eu respeito isso. Terminando este email, percebi que estou me sentido de alguma forma melhor.
Termino com um obrigado.
Abs.

...

David, em primeiro lugar, eu que agradeço seu email, suas palavras gentis, e sua generosidade em se abrir dessa forma. Seu email faz todo o sentido, afinal somos profissionais da imagem, artistas, desenhistas, designers.. Não importa o rótulo. a vontade de se sentir especial fazendo o mundo ao nosso redor de alguma forma mais belo ( ou o oposto disso ) pelo nosso olhar, através de nossos trabalhos é o que nos move e une. eu entendo e passo com certeza, por todas essas suas dúvidas e dilemas. Sabe, vocêl me fez pensar em tudo isso. Acho que você deve entender primeiramente, que inspiração, não existe. o desenho se realiza na sua prática incessante, permanente. Você deve continuar sim, tendo contato com todos esses artistas que te inspiram e que te tocam, assim como você se sente bem tocando alguém com seu trabalho, nem que seja por um milésimo de segundo, transportando-as pro seu mundo imagético, convidando-as para participar do seu jogo.

Acredito que você tenha também que se encontrar como artista( uma eterna busca ), e não ter vergonha disso. Técnicas de desenho, pintura e gravura estão aí desde milênios, mas se você não tiver seus assuntos, seus conceitos, seus eixos temáticos, sua voz ativa ali, não é suficiente. o artista meio que se foca em procurar e criar mais problemas e questões pra resolver do que respostas para as que já tem. Qual seria seu lugar no mundo como artista? O que você tem a dizer? Como seu olhar e sentimento se configuram em imagens? qual seu diferencial dos outros que estão aí?é um processo que particularmente me soa um tanto sádico. Não é fácil realmente se sentir criativo o tempo todo. Não sei sua rotina, mas, por exemplo, trabalho o dia todo numa agência de Publicidade, fazendo todo o tipo de demanda com o mínimo de prazo dentro daquela realidade que todos nós sabemos e reclamamos..que o cliente é burro, que te poda por completo..que não dá pra fazer coisas legais. Entendo que a maior parte das pessoas, pelo menos aqui no Brasil não tem um mínimo de conhecimento de como se produz imagens, não se estuda composição visual e muito menos História da Arte, etc.

Então a gente tem que ficar se testando a cada segundo. é enlouquecedor eu diria. preciso sempre me voltar pra dentro, me reencontrar e exercitar minha criatividade como um músculo, se não isso se atrofia. Tento me cercar de coisas que me estimulam, as vezes coisas banais e totalmente por acaso. Mais do que produzir objetos, arte - em todas suas formas - é olhar o mundo de outra forma. Se cobre, mas não exagere nisso. dê um tempo pra você as vezes, se alguma idéia que você gostou tem potencial, transforme ela numa série. trabalhar com séries é muito bom. outra coisa é não se levar por tendências, por maneirismos de fazer as coisas - isso tanto o design qto as artes visuais têm demais! não caia como um patinho nessas ondinhas do que tá saindo nos anuários, revistas descoladas como as Zupis da vida. observe. veja o que gosta. não seja somente contemplador, não se contente só com essa posição. "um dia queria ser assim...não..você já pode ser agora., mas não necessariamente assim, ok?


Infelizmente ainda não posso me sustentar e pagar todas minhas contas com arte, só produzindo coisas como eu quero e as vendendo pelo preço que acho justo. viver de pura arte é o sonho de todo artista. mas tento levar tudo com o máximo de proximidade com minha área de formação (desenho) e fazendo projetos paralelos, sempre postando, divulgando, pra manter um clima de atividade e produção. ficar parado demais que é péssimo. é um estímulo a cada dia, e tento não levar essa realidade como trágica ou cruel. um pouco de ironia e cinismo também ajudam nesse processo. Talvez no fundo eu seja um otimista.


Espero que esse "branco" criativo que anda te travando passe logo, mas acredite, ele é normal. se você realmente ama o desenho e quer seguir essa área, logo estará se coçando pra rabiscar novamente. é sempre assim. uma cachaça. mas também não seja ingênuo. se avalie bem. mostre seus trabalhos pra pessoas que já tem experiência, que possam te acrescentar coisas relevantes, críticas construtivas. professores de arte, designers, enfim..gente que você sente que pode falar. a mamãe, a titia e o melhor amigo - que não desenha - sempre acharão que você faz as coisas mais lindas do mundo. e isso..mantenha sempre em contato com coisas que te inspiram..música, literatura, cinema, TUDO é válido!sempre. arrisque, poste, não seja tímido. todo artista é vaidoso e não pode se intimidar com qualquer coisa. ouse, sem medo. mostre sua arte pro mundo, porque a partir do momento que você a expõe de alguma forma, ela não te pertence mais. O que acontecerá entre ela e quem a vê e a sente..você não terá controle em geral.

bom, espero que tenha te ajudado em alguma forma. é complicado interferir em processos dos outros, mas no que precisar, pode sempre escrever. desejo a você muito sucesso com sua arte, e que não desista. é um desafio quase sempre revigorante a cada dia. vale a pena, no fim das contas.


um abraço do João.

3 comentários:

Pedro disse...

Ajudou não só o David, acredite...

kawkun disse...

DAAAAAAAW!
eu tbm to no barco de pessoas que o Joapa inspira! o3o

qqr dia desses te mando uma carta cheia de cliché tbm hehehe

nara amelia disse...

Dei um bizú nos teus desenhos e tb digo que gosto bastante. Não digo mais pra não ficar redundante. abraços