domingo, 12 de fevereiro de 2012

meu refrão preferido


de toda música pop, esse é o meu refrão preferido. cantaria repetidamente até morrer.



Cause in the dark of the night you're all i can see
and you sure look like a star to me





There is nothing special about me
I am just a little star
If it seems like I'm shining it's probably
a reflection of something you already are
I forget about myself sometimes
When there's so many other around
When deep inside you feel the darkest
That is where I can always be found
That is where I can always be found
That is where I can always be found

Just keep trying and trying
It's just a matter of timing
Though the grinding is tiring
Don't let 'em stop you from smiling
Just keep trying and trying
Sooner or later you'll find it
It's surprising how inspiring
It is to see you shining
Cause in the dark of the night you're all i can see
and you sure look like a star to me



Votos de Submissão, de Fernanda Young

Caso você queira posso passar seu terno,
aquele que você não usa por estar amarrotado.
Costuro as suas meias para o longo inverno…
Use capa de chuva, não quero ter você molhado.
Se de noite fizer aquele tão esperado frio
poderei cobrir-lhe com o meu corpo inteiro.
E verás como a minha pele de algodão macio,
agora quente, será fresca quando for janeiro.

Nos meses de outono eu varro sua varanda,
para deitarmos debaixo de todos os planetas.
O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda
- Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas
-Depois plantarei para ti margaridas da primavera
e aí no meu corpo somente você e leves vestidos,
para serem tirados pelo seu total desejo de quimera.
- Os meus desejos, irei ver nos seus olhos refletidos.

- Mas quando for a hora de me calar e ir embora
sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim.
Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola,
mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim.

(Nem vou deixar – mesmo querendo – nenhuma fotografia.
Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda minha poesia.)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

as revistinhas

Quando eu era criança, principalmente na transição para puberdade, eu tinha muitas brigas com minha mãe. Ela sempre foi e é uma mulher carinhosa, generosa, devota, que dedicou toda sua vida e coração pra família. não conheço outro ser humano mais humilde e do bem. Ao mesmo tempo, naquela época, minha mãe era muito agressiva, quando tinha seus momentos de cólera. Eu me lembro bem do horror que eram algumas discussões que tínhamos, sempre começando por coisas bobas que se transformavam em momentos de dor e agressões verbais. e algumas vezes físicas. Eu ainda tento entender a cólera da minha mãe naquelas horas. e as causas delas. Eu tenho algumas suspeitas. a primeira é uma certa revolta por parte dela de não ter tido nada que facilitasse sua vida. Desde pequena ela só soube cuidar dos outros. da mãe que perdeu aos 14 anos. do meu pai. de mim e do meu irmão. de meia dúzia de primos. das crianças carentes. de todos. menos dela. Ela era dependente do meu pai financeiramente e foi forçada a assumir responsabilidades muito grandes desde criança. Ela ficou grávida de mim aos 18 anos. Tinha que dar conta de uma casa, com o alcoolismo de meu pai, sem nenhuma chance de escape. ela era uma refém da própria vida e estava presa nela. Eu acho que naquelas horas ela colocava pra fora, com aqueles gritos que ainda sangram meus ouvidos, toda essa dor e frustração. Minha mãe sempre acreditou que todas as outras famílias eram mais felizes que a nossa. que as outras esposas tinham maridos mais carinhosos, que bancavam bons jantares, viagens, passeios. Que os outros filhos eram mais educados, tinham mais méritos. Os outros sempre estavam numa posição de superioridade e ela de inferioridade. A opinião e aprovação dos outros sempre era a mais relevante.

A minha segunda hipótese, que na verdade se soma à primeira, era o fato de que ali ela já começava a perceber os sinais evidentes daquela homossexualidade de um filho que ela jamais esperou lidar nessa vida. com horror ela precisava fazer algo pra colocá-lo na linha. Ela não poderia jamais conceber e aceitar aquilo. Eu não posso dizer que as surras que levei foram por causa disso, mas eu acredito que possa sim, ter alguma influência.

Eu me lembro de uma reação dela que se repetia em inúmeras brigas que tivemos. Minha mãe, após vários gritos, e palavras duras, se dirigia às minhas coleções de menino. eram revistas em quadrinhos, papéis, desenhos, todo tipo de revistinhas. super heróis, cards, joguinhos e os destruía na minha frente. Perdi a conta de quantas revistinhas eu vi virar papel picado, assim como perdi a conta das vezes que aquilo me fazia chorar e xingar muito. não era possível que uma criança pudesse sentir tanta raiva, tanta ira acumulada, a ponto de quase explodir por dentro. Eu lembro também de uma coleção de brinquedos em miniaturas de todo tipo que eu tinha e guardava numa sacola plástica. sempre gostei de miniaturas de tudo, e ali havia miniaturas de carrinhos, de bonequinhas, de bichinhos, de tudo mesmo. eu adorava criar historinhas em um monte de ervas daninhas que viravam florestas tropicais, em pilhas de tijolos que viravam ruínas de uma civilização perdida, em poças d´água que viravam recifes de corais. Minha mãe dizia que eu já estava virando um rapazinho e que não cabia bem continuar brincando disso. Como eu tinha prazer. Lembro que um dia, após voltar de uma pequena temporada na fazenda de um tio, eu não achei a sacola. perguntei, mas ninguém respondia nada. Eu não lembro como fiquei exatamente ou que fiz, mas um dia eu vi vários daqueles brinquedinhos boiando numa fossa. todos haviam sido jogados fora ali.

O mais louco de tudo isso era a minha insistência. Eu consigo ver aqui, agora, na minha frente, um menino magrinho, chorando, soluçando, e sentindo muita, muita raiva. mordendo os lábios e revoltado com aquilo tudo, e indo dormir chorando mais ainda. o dia passava, ele ia pra escola. a vida continuava, e em pouco tempo havia uma nova coleção de revistinhas, que durariam até o próximo ataque de fúria da minha mãe. os brinquedinhos eu fui parando, talvez por ter realmente enjoado deles e crescido, talvez por ter desanimado com a ideia deles serem jogados no lixo de novo.

Mas as revistinhas reapareciam, em dobro. mais volumosas, em pilhas. elas aumentavam proporcionalmente à minha fome de conhecimento sobre tudo. sobre mangá, sobre séries, sobre biologia, sobre esoterismo, sobre sexo, sobre qualquer coisa. eu era muito, muito curioso. eu explodia com cada novidade. era tudo que eu tinha, era o mundo dos meus sonhos, só meu. e eu não abriria mão dele. cada vez que elas eram destruídas, elas voltavam mais fortes.

Minha mãe mudou completamente. não teve mais esses acessos de cólera. eu saí de casa e vim tentar a vida e estudar artes visuais na capital, sozinho. Eu acho que ela se arrepende de ter pegado tão pesado. talvez não precisasse tanto. Eu sei que isso causou um abismo entre a gente, mas também não a culpo, não tenho raiva mais. Me sinto desconfortável em chegar perto e expressar amor de uma forma mais afetuosa e efusiva. E isso tem ficado mais tenso ano após ano. minha mãe amansou absurdamente desde que saí de lá. Não consigo imaginá-la fazendo novamente as mesmas coisas agressivas que fazia no passado com tanta frequência e que machucavam.

Eu acho que assim tem sido vários outros desdobramentos na minha vida, como as coleções de revistinhas rasgadas. sempre dói tanto, mas eu precisava delas. eu precisava daquelas imagens e textos que chegavam até mim. eu precisava acreditar em algo, eu precisava ter algo só meu. Eu perdi várias outras coisas nesses anos e sempre fui obrigado a lidar com essas perdas sozinho, sem muita facilidade, sem muita barganha. o menino que soluçava e tentava resgatar algumas páginas não rasgadas ainda está encolhido em algum quarto de madrugada, pensando no quanto é difícil começar tudo de novo.

Nos últimos dias tenho acordado no meio da madrugada e chorando muito, mas muito, assim do nada. sem um motivo aparente, sem um foco, sem um direcionamento ou causa. não me sinto deprimido, não perdi a vontade de trabalhar, criar e sair com meus amigos. acho que estou relativamente bem, mas queria entender o porquê dessa estranha dor que não estou acostumado. nessa vida a gente tem vários tipos de dor. a dor da perda, a dor da saudade, a dor da rejeição, a dor da decepção, a dor física, a dor da impotência e bilhares de outras. e quando você não sabe a causa da dor? seria uma premonição de algo ruim? Qual o motivo de misturar tantas lembranças, tantas pessoas, tantas coisas sem nexo entre si nessas horas de choro? seria uma somatização de todas as outras formas de doer?

eu tenho sido obrigado a ser forte. e se tudo desabar?

O que está acontecendo comigo?


Na saúde na doença, na alegria e na tristeza


A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

(Tom Jobim - A Felicidade)


Eu sempre desconfiei que eu tinha ela ao meu lado. Eu sempre suspeitei que a adquiri ou nasci com ela. eu sempre senti que ela era uma parte minha. Eu sempre acreditei que nada poderia ser feito sem que ela ao menos se manifestasse de alguma forma, sempre mostrando o outro lado da moeda. Mas eu sempre a neguei, aliás, eu, como todo ser humano fui educado durante toda a minha vida a combatê-la, a curá-la. Fui instruído a livrá-la do meu campo, das minhas metas. Como a pior das doenças, meu objetivo de vida foi dedicar toda minha força e energia para erradicá-la. Ela é a tristeza, ela é a melancolia.

Falar de tristeza é a coisa mais óbvia desse mundo. e ao mesmo falar assim, tão genérico, soa vago, sem rumo, sem propósito. eu falo aqui da consciência da tristeza. Falo de uma constatação radical de sua presença eterna. Falo, ou pelo menos tento, da minha vontade de reaprender a viver com ela, sabendo que ela jamais irá embora. ( ela nunca saiu daqui.)

Eu tenho feito um esforço nos últimos seis meses sobre-humano pra dar um novo sentido a essa minha convivência com ela. e colocar isso na prática. há um misto de revolta e perplexidade em constatar que tudo que te ensinaram a vida toda, na escola, na família, nos grupos de amigos, na publicidade, na TV..tudo que te ensinaram no que diz respeito à palavra felicidade não se sustenta de fato. A obrigação de tê-la e as formas pelas quais somos obrigados a persegui-la sem questionar, gera uma eterna frustração e um processo infinito de dor. Somos empurrados abismo abaixo na busca de uma felicidade sem pararmos pra pensar nas condutas que temos nesse processo.

Somos instruídos a ter. a acumular. Nos matamos de trabalhar para TER um carro, tablets, i-phones, imóveis, filhos. mas não aprendemos ainda a parar de destruir e explorar a terra e o outro. a felicidade, da forma como questiono, é uma posse. é uma moeda de troca. é asséptica. é insistentemente moldada como perfeição, como prêmio, que só aqueles que a merecem receberão. é uma felicidade plácida, imaculada. escancarada, obscena. é mística, é fetiche. é gozo, é perfumada. é minha, somente minha.

Essa idéia de felicidade se confunde com o dogma. é uma verdade inquestionável, afinal, quem seria louco de questionar seus próprios momentos de felicidade? Sendo assim, essa mesma e tão perseguida felicidade seria o começo e o fim. Mas não pra mim.

Eu a renego. infelizmente eu a enxergo nua. Eu consigo ver seu frágil esqueleto. Na verdade eu não ousaria chamá-la por esse nome. eu não ousaria tentar dizer o que é de fato a felicidade. seria a maior das pretensões e a maior das mentiras. Eu não posso definir algo que não acredito. Eu não quero viver a obrigação de ser feliz dessa forma. Eu quero entender essa consciência e poder voltar a viver com menos angústia. Eu queria caminhar junto de outro(s) que compartilham dessa consciência. Eu gosto da vida. Eu acho que ela é escancaradamente melhor e mais bonita do que essa idéia vendida da busca de um tipo de felicidade standard a qualquer custo. Um tipo de felicidade que entra em colapso quando se depara com o primeiro sinal de imperfeição, uma estrutura linda, mas que rui nas primeiras rachaduras aparentes.

Eu gosto da chuva que me adormece. (a mesma chuva que leva tudo). Eu amo essa boca que eu beijei. (a mesma boca que saiu tanta dor) . Existem infinitos tipos de tristeza e infinitos tipos de felicidade. Eu também não concordo em dividir a vida em turnos de tristeza e felicidade. isso é uma anomalia que segue andando e não fazemos nada. Eu estou cansado. muito cansado. Estou exausto de ver algo que está claro que não funciona se repetir. Estou cansado de ter vergonha e culpa pela minha melancolia. Estou sem forças pra insistir em algo tão frágil, estou cansado de lutar por tão pouco e perder, perder. essa é a maior das tristezas.

Tudo vai coexistir. Eu, vocês, vamos conhecer novas pessoas, novos namorados. vamos subir na carreira, vamos ganhar mais dinheiro. vamos conhecer novos lugares, novos sabores. ainda vamos sorrir muito nessa vida. e no meio disso tudo, vamos adoecer, vamos sofrer algum acidente, vamos ferir muito alguém e vamos ser feridos. como disse, a vida não é feita de turnos lindos e horríveis. a dor e a alegria sempre estiveram juntas ali. Eu quero sonhar com a possibilidade de viver bem sabendo disso. eu sou um poço de defeitos, eu jamais poderei garantir a felicidade de qualquer ser nesse mundo. Tudo que eu ofereço agora é minha disposição, a partir dessa consciência da dualidade, pra continuar escrevendo essa saga. Alegria é muito melhor do que tristeza. Tristeza não tem fim, felicidade sim.

A força e a beleza da vida são grandiosas demais pra gente ousar querer excluir sua parte mais feia e triste. e serei eternamente grato a quem me fez constatar isso.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

start!


via Eduardo Caçador

Everything Starts Small from Scott Benson on Vimeo.

a beleza da vida e da morte




I had always heard your entire life flashes in front of your eyes the second before you die. First of all, that one second isn't a second at all, it stretches on forever, like an ocean of time... For me, it was lying on my back at Boy Scout camp, watching falling stars... And yellow leaves, from the maple trees, that lined our street... Or my grandmother's hands, and the way her skin seemed like paper... And the first time I saw my cousin Tony's brand new Firebird... And Janie... And Janie... And... Carolyn. I guess I could be pretty pissed off about what happened to me... but it's hard to stay mad, when there's so much beauty in the world. Sometimes I feel like I'm seeing it all at once, and it's too much, my heart fills up like a balloon that's about to burst... And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can't feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life... You have no idea what I'm talking about, I'm sure. But don't worry... you will someday.

(Lester Burnham, American Beauty)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

LIKE A FLOWER





Martin Muller





.

HÁ UMA LUZ QUE NUNCA SE APAGA

Take me out tonight
Where there's music and there's people
Who are young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven't got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people
And I want to see lights
Driving in your car
Oh please don't drop me home
Because it's not my home
It's their home
And I'm welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure and the privilege is mine

Take me out tonight
Oh take me anywhere
I don't care, I don't care, I don't care
And in the darkened underpass
I thought "Oh God, my chance has come at last"
But then a strange fear gripped me
And I just couldn't ask

Take me out tonight
Take me anywhere
I don't care, I don't care, I don't care
Just driving in your car
I never never want to go home
Because I haven't got one
Oh, I haven't got one

There is a light that never goes out
There is a light that never goes out
There is a light that never goes out
There is a light that never goes out


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

o outro

atordoado

Não voltar pra onde na verdade eu nunca havia saído.
Não lutar contra uma força que é muito maior que eu.
Não reencontrar o que na verdade nunca foi perdido.
Acordar sem ar, sem chão e sem rumo e ainda assim sorrir.
Um sopro de vida que preenche o peito. um sopro que se transforma em tufão e que parece me explodir por dentro. um tufão que tem a leveza de uma brisa do mar.
nada mais importa.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

24 horas e 3 portas

Nesse corredor escuro, frio e asfixiante existem 3 portas.

a primeira porta é a de cor lilás, que corresponde ao sentimento da melancolia e da espera. Quando entrei ali, não encontrei mais aquele homem em posição fetal que sempre dormia naquele quarto. O homem parecia ter acordado da letargia em que se encontrava quando o conheci, e estava em constante movimento, fazendo malas e separando documentos para o próximo check in. Ele não era mais um homem melancólico. era um homem do mundo dos homens, ele havia voltado à matéria, ao concreto, ao sinal 3G. Este homem havia se resolvido, e dava claros sinais de que ele havia se cansado de uma vida inteira de melancolia. sua poesia agora era medida, pensada, calculada e cuidadosamente direcionada. Ele havia se tornado um homem comum. e eu me transformei nele naquele instante. trocamos nossas almas, mas ele não se importou com isso. continuou suas tarefas. O homem da sala lilás não havia notado minha presença. Deixei com ele minhas chaves e meu número de telefone. Fui embora dali, um pouco chateado e ansioso, mas ao mesmo tempo confortado pela idéia de que eu não teria mais nada a perder.


a segunda porta é a de cor azul, que corresponde ao sentimento da verdade. Quando entrei ali encontrei o homem do espelho. Ele passou todos seus anos olhando para o seu próprio rosto em frente ao espelho já cheio de manchas e descascados, focando em um ponto que se perdia no nada, focando outra vez, e outra, e outra.. Era triste o olhar de cansado daquele homem que procurava a verdade, o sentido, o valor original de sua essência. Ele simplesmente queria achar uma pista naquele espelho. uma pista do seu self. Ao mesmo tempo a ideia de encontrar um monstro o deixava paralisado e em choque. ele tinha medo do que poderia encontrar, por isso desviava seu olhar para o nada de propósito. ele apenas enxergava, ele se recusava a ver. Quando ele me olhou, ele sorriu. e quando ele sorriu, eu o abracei e o chamei pra dormir comigo, pois ambos estávamos bem cansados. Quando nos deitamos, não consegui dormir, e passei a noite em claro, observando suas costas. me coloquei a uma distância para captar toda o comprimento dos seus ombros. eram costas bonitas, mas meu olhar também se perdeu ali, como o olhar dele se perdia no espelho. Desejei mais do que nunca que o dia amanhecesse para que pudesse voltar pra minha casa. foi isso que fiz assim que os pássaros começaram a cantar. saí angustiado e triste dali, mas conformado pelo fato de que eu não tinha mais nada a perder.

a terceira porta é a de cor laranja, que corresponde ao sentimento da vertigem. Eu ainda não entrei nessa sala, mas como a porta está entreaberta, eu consigo ouvir a voz do homem que guarda essa sala. ele é sereno, mas firme, percebo isso pela sua voz. nos comunicamos eu aqui de fora, e ele ali dentro. foi por causa da sua voz que eu entendi o que significa viver de vertigem. O visito uma vez por dia e paro meus afazeres pra ouvir suas histórias e contar as minhas. Hoje nós falamos sobre a vertigem que sentimos diante do nada, do horizonte, do absurdo da vida. sobre a vertigem, da imensidão do céu e dos abismos do coração. relacionamos a falta de ar de uma corrida, com a falta de ar que alguém especial provoca pela sua simples presença na minha frente. sobre a fome e busca dessa falta de ar. só de chegar na beirada dessa porta eu perco o ar, eu fico embriagado com o cheiro dessa porta, tonto, com vontade de deitar no chão e bater a cabeça na parede. Na porta laranja, há rabiscos desesperados de amor e paixão, de sonhos. um monte de bilhetes loucamente apaixonados e românticos se forma no rodapé da porta laranja. estão ali durante anos, já com musgo. como um muro das lamentações, só que ao contrário. Hoje eu e o homem falamos de um estranho amor como se fosse uma espécie rara. Me senti como um biólogo em uma expedição na floresta tropical, procurando uma nova espécie de cogumelo. desconhecida. eu não a encontrei, mas sei que ela existe ali, esperando ser descoberta. e usada. Me excita a idéia de que esse cogumelo seja alucinógeno, para que a viagem de nós dois fique completa. é hora de ir embora, não é permitido ficar muito tempo na porta laranja. antes de ir tenho vontade de jogar um coquetel molotov ali dentro e sair correndo. como a amo e como a odeio. Mas jamais teria coragem. é preciso de vertigem pra viver. viver de vertigem. é preciso sonhar. Saí dali sorrindo, mas sabendo que tudo era uma imagem, um holograma, um sonho. uma possibilidade do sonho, uma vontade dilacerante. Delicadamente fechei a porta da vertigem e fui comer algo, ainda tonto, mas me sentindo melancolicamente seguro e em terra firme, pois sei que eu não terei nada a perder.

Bom dia, Boa tarde, Boa noite.




ESSE É O ESPÍRITO

Hear No Lies (Little Loud Remix) by waylayers