quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Querido vizinho,




Nessa noite chuva, no silêncio do vigésimo primeiro andar deste apartamento, comecinho da madrugada, ouço meu vizinho escrevendo algo na sua máquina de escrever. todas as imagens que construo dele são puramente a partir da solidão e silêncio que eu e ele compartilhamos nesse momento. Já são dois anos que nossa não comunicação se constitui.

Na verdade não sei se ele é homem ou mulher. se é jovem ou velho. se mora sozinho ou tem família. se escreve cartas de amor, poemas de saudade ou preenche formulários e documentos. Não sei qual seu apartamento, só sei que é neste edifício em frente ao meu quarto, nos fundos. Nossos encontros têm tantas coincidências. Será que a paz que ele deve sentir ao ouvir aquele som que a máquina de escrever faz quando muda de linha é a mesma paz que eu sinto daqui? será que é mesma serenidade que eu sinto quando gosto desse retrato que desenho agora?


Somente por estes dias é que fui me dar conta o quanto preciso e talvez sinta algum carinho por esse vizinho cuja referência é somente um som. uma cadência. Eu gostaria de receber alguma carta escrita por ele nessa máquina de escrever antiga e charmosa. Diria pra ele o quanto me fez bem sua presença quase fantasmagórica/mística nas noites da mais pura solidão e quietude. Meu vizinho querido que ainda faz uso da datilografia, como você é incrível. Como você é perfeito, a partir da anulação de qualquer outra referência sua que não seja seu ruído. Na minha mente você é um capitão do mar já velho, porém forte e destemido. E que não tem um oceano internético em frente ao seu teclado ( mais duro que o meu ) para se perder na sua imensidão de tédio e solitude.

Meu vizinho, eu me sinto uma criança acreditando que compartilho tanto com você. O que você me diria dessa fase tão estranha e confusa que estou vivendo? que conselhos me daria para os êxitos e fracassos diários que teria pra te contar? Uma coisa é certa: nada é mais real e mútuo que esse silêncio que nos une, o qual é interrompido por serenas melodias da sua máquina de escrever antiga. ( eu sei que é antiga, pois já fiz datilografia quando era adolescente ). Será que você também ouve as músicas que coloco de vez em quando? às vezes eu sei que empolgo e pode ser ouvido pelos vizinhos. Com certeza você percebeu que estou obcecado com a trilha sonora de Evita.



Sabe vizinho, desde que tomei consciência de que você é real, o silêncio passou a ser algo cada vez mais ameno e menos devastador e triste. O silêncio passou a ser um terceiro companheiro nosso.

Não deixa de ter um quê de místico e espiritual nisso tudo. ou talvez seja apenas ingenuidade minha, o que também não seria ruim, pelo contrário. Mas é uma sensação interessante sentir afeto por uma pessoa que até então é somente um som, uma onomatopéia. Acho que no fundo, queria que continuasse assim. é bom saber que sozinho de verdade nessas horas, eu não estou. Quero ter esse pequeno porto de solitude pra me encontrar com você, mesmo sem você ter noção disso, não importa. Desejo que você tenha boas notícias pra escrever e receber.

00:41. parece que os sons da máquina pararam. tudo continua ok, pois sei que você sempre dorme mais cedo que eu, que tenho insônia. raramente você vira a noite datilografando.

Boa noite vizinho. tenha um bom dia amanhã.

So what happens now?


So what happens now?
(Another suitcase in another hall)
So what happens now?
(Take your picture off another wall)
Where am I going to?
(You'll get by, you always have before)
Where am I going to?

Don´t ask anymore.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

prelude

‎"When I look back on my life, it's not that I don't want to see things exactly as they happened. It's just that I prefer to remember them in an artistic way. And truthfully, the lie of it all is much more honest because I invented it.

Clinical psychology tells us arguably that trauma is the ultimate killer.

Memories are not recycled as atoms and particles and quantum physics, they may be lost forever. It's as if my past was an unfinished painting, and as a painter, I fill all the spaces ugly and make it beautiful again. Not that I was dishonest, I just hate the reality"

Prelude Pathétique

domingo, 13 de novembro de 2011

Trust is like a mirror.. u can fix it if its broke...but you can still see the crack in that motherfucker's reflection!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

é preciso escrever e registrar tudo



justamente para não esquecer, principalmente do que incomoda a alma. é preciso registrar para voltar depois e compreender. É preciso ( Eu preciso ) transformar caminhos diários em imagens para espantar as vozes. é preciso esgotar esses caminhos, procurar novas ruas, trechos, itinerários. é preciso ser forte e continuar caminhando com os olhos cheios de água e ainda assim perceber as imagens e ignorar as vozes.

Existe amor em BH? Em SP dizem que já não existe mais: http://www.youtube.com/watch?v=f35HluEYpDs


















terça-feira, 1 de novembro de 2011

there ain't no other way















Cause if there's a chance
We might've missed
And if there's a ray of light in this
Baby you should know that this
is where my heart takes over?

?

Madri!




compartilhando com vocês o catálogo do Festival Internacional de Cine Lésbico Gai y Transexual de Madrid que participei como ilustrador. É importante dizer que fazer esse simples trabalho resultou em significados muito importantes em um contexto muito delicado e decisivo da minha vida, onde pude obter algumas respostas sobre o que posso ser e para onde poderei ir como humano e profissional nesses tempos. Fico feliz por conhecer pessoas como Lucas Casanova que trabalham de forma íntegra e profissional e que depositam confiança e liberdade criativa em mim. meu coração e agradecimento!

para ver o catálogo é só clicar aqui!

e não deixem de conferir todas as atrações do festival pelo Facebook: http://www.facebook.com/LesGaiCineMad?ref=ts


Coração congelado

Ontem e hoje minhas narinas arderam com esse vento gelado que sopra em Belo Horizonte e me lembrei daquele outro vendo polar da Argentina. Lembrei também da luz e das cores que "o ar" daquela cidade tinha, lembrei da mão que me guiava por cada esquina, cada grande avenida, e de cada música que se tornaria tema a partir dali.

Quando lembro de tudo isso, meu coração se congela junto, sem a chama que o mantinha sempre quente e pulsando. me sinto parado diante de imagens do nosso próprio filme, assistindo e não sabendo se fico aqui revendo a glória de um passado de absoluta felicidade ou saio correndo, desesperado para não deixar a tristeza da nostalgia e o sentimento de ausência tomarem conta.

Ouço a trilha de Evita e invento histórias. Esqueci um pedaço da minha alma em algum lugar de Buenos Aires, como os anti monumentos que estão naquelas calçadas.

Eu queria respirar esse sopro de ar ( quente ) denovo.

domingo, 16 de outubro de 2011


oh my baby, don't cry
oh my babe, just say goodbye
oh now baby, don't cry
oh my babe, at least we tried

at least we tried to make it
but in these days I'm so confused
oh my love, at least we had it
let me hold on to you

oh my baby, don't cry
oh my babe, just say goodbye
oh now baby, don't cry
oh my babe, at least we tried

at least we tried but we lost it
i will remember
how you stood there and you smiling
and you smile there with me

oh my baby, don't cry
oh my babe, just say goodbye
oh now baby, don't cry
oh my babe, at least we tried

oh my baby, don't cry
oh my babe, just say goodbye, say goodbye
oh now baby, don't cry
oh my babe, at least we tried, ohh
oh my baby, don't cry
oh my babe, just say goodbye
goodbye my baby, don't cry
oh my babe, at least we tried, whoa

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Biológico - é preciso um músculo para amar

Amanhã volto pra academia, seguir fichas, levantar halteres enferrujados, fazer alongamentos e caretas horrorosas, revezar aparelhos com pessoas simpáticas, destestáveis, lindas, ou pedantes. Na academia eu exerço também meu olhar pseudo analista pros tipos, fenótipos e personas que convivem ali ao som de axé, psy trance ou hits da Jovem Pan. Há momentos divertidos, não posso negar.

Sempre que terminamos um relacionamento, no meio de toda a tristeza e vazio que acompanham esse período, temos esses picos e impulsos de querer superar imediatamente alguma parte do momento, nem que seja a própria imagem, e essa imagem que a gente tem de nós mesmos quase sempre é a primeira em que pensamos transformar. funciona como um ato de criação. Ficar em forma, perder peso, sumir a barriga, parecer sexy em uma roupa, valorizar suas formas, ganhar elogios, atrair, chamar atenção, acasalar, rituais. é sempre o mesmo impulso, a mesma melancolia, as mesmas tentativas, o mesmo esforço gasto, o mesmo tempo e dinheiro investido. mostrar ao mundo que você não está na pior. ( acreditando nisso ou não ).

Li uma vez em um blog algo muito interessante. "não exija dos outros o que você não pode oferecer". é a mais pura verdade. quando se fala em recomeçar processos, ritmos, não será da sua tal beleza interior, pura e simplesmente que a transformação acontecerá. toda revolução ou renascimento tem um processo estético intrínseco. Mas isso é outro assunto.

Eu sei que vendo, cobiçando, e pensando em músculos, me lembrei dessa música da M.I.A. que eu amo demais. e que cai tão bem nessa fase tão estranha. já que acreditamos que são os músculos que movem, que bombeiam, que dão forma ao corpo, que aproximam os corpos, tudo talvez faça um pouco mais de sentido. um coração, um bíceps, nos ensinaram que um simboliza o amor e a vida, o outro simboliza virilidade, força, testosterona. será que não é tudo a mesma coisa?

o coração é um músculo como o outro? Quando malhamos o corpo, os músculos ficam "lesados" e hipertrofiam, se tornam fortes. Quando malhamos nosso coração, submetendo ele às mais fortes emoções, provas, e testes, parece que ocorre o contrário. ele se atrofia, encolhe, fica do tamanho de uma cereja, de um morango. não deveria, já que também é um músculo, o filho da puta.

M.I.A. diz mais coisas com muito mais poesia do que eu. e a melodia é a coisa mais gostosa do mundo.

When everybody leaves you lonely, times are worse than sad
And the world is falling on your head
Just remember for all you know,
good or bad come what may
You're gonna live tomorrow, if you don't die today.

It takes a muscle to fall in love
It takes a muscle to fall in love
It takes a muscle to fall in love

ouvir os outros

Dizem que saudade é um atestado. Dizem também que não há amor se não tiver dor. Dizem que que tudo sempre acaba. Dizem que um amor de verdade resiste ao tempo e vive para sempre. Dizem que amar não faz sentido. Dizem que o amor é algo que não dá pra descrever em palavras. Dizem que não devemos dar ouvidos à nada além do nosso coração. Dizem que a linha entre o amor e ódio é muito tênue. Dizem que devemos ocupar nossa cabeça e peito de novas coisas, aventuras, novos lugares, novas pessoas. Dizem que a gente tem que se esforçar pra esquecer. Dizem que que devemos trocar o amor pela antipatia. Dizem que devemos escrever tudo que já sentimos e guardar numa gaveta secreta pra reler tudo daqui vários e vários anos. Dizem que isso tudo é pra gente não esquecer o que fomos, pra gente entender o que nos constitui e o que pode ser sido nossa história.

road to love


Tudo soa tão diferente, tão novo e estranho. engatinhando, já reservei minha ida pra minha cidade natal, dia 21 de dezembro. não sei o que encontrarei, não sei como voltarei. são novas tramas de incertezas e frio na barriga dessa rede de incertezas que me cobre. Até que ponto vale a pena viver pelas incertezas? até que ponto elas podem tornar a vida mais surpreendente e absurda, mágica, linda? poderá a vida ser boa e desprovida de sentido?

o que verei? o que deixarei? o que levarei pra sempre? Quem irá comigo?



EU VOU SAMPLEÁ, EU VOU TE ROUBÁ




constatações de uma segunda feira nublada


Às vezes nos damos conta que as palavras são mais que palavras. são punhais afiados que prosseguem rasgando o tecido do silêncio e da incerteza. E muitas vezes saímos e vivemos com este punhal cravado na cabeça, nas costas, no peito, na garganta e não o sentimos diretamente, sem lembrar do choque, do impacto e violência silenciosa daquele momento em que o punhal foi cravado no nosso corpo, na nossa alma.

Entramos na padaria, tomamos café, compramos pão, passeamos na praça, pegamos o táxi, com aquela faca enfiada na sua carne, e somente você ainda não havia notado. até chegar o momento em que essas palavras-punhais começam a fazer eco, a reverberar. é nesse instante que o punhal é retirado.

Palavras somente nos pertencem até o momento em que elas permanecem guardadas em nossa boca. após ganharem o ar e o mundo, já não nos pertencem mais.

domingo, 2 de outubro de 2011

“Sometimes… My heart, sometimes, feels so black. In the dunes of sand. And other days, my heart feels like rainbows."